O que, afinal, aconteceria com a humanidade se os humanos alcançassem a imortalidade? Você consegue imaginar um mundo em que ninguém morre, nem por doença, nem por acidente ou crimes?

Eu nunca tinha pensado nisso até me deparar com uma obra fantástica e pouco conhecida do Arthur C. Clarke. Em seu livro, o autor narra com toda sua maestria uma civilização protegida de tudo, inclusive da morte, mas trancafiada em seu próprio “mito da caverna”. O nome do livro não poderia representar melhor essa ideia, A Cidade e as Estrelas.

A princípio, a imortalidade parece saída de um mundo perfeito, uma espécie de consequência social do avanço tecnológico. Não raro é pensar que a imortalidade seria a linha de chegada de todo o avanço de uma sociedade, com a companhia de um bem-estar e igualdade social plenos.

Mas… Será? A grande questão aqui, é: o ser humano está preparado para viver para sempre?Você consegue se imaginar ainda na Terra daqui a 200 anos, trabalhando todos os dias; convivendo com outros seres humanos; comendo e dormindo… Todos os dias, sem interrupções, por ano após ano após ano e após ano?

Não é difícil entender onde isso pode parar. Se você está calejado por obras de ficção científica e distopias, provavelmente já consegue ver com clareza que uma sociedade assim vem acompanhada de um caos mental (controlado, sim, mas ainda caótico) e, quem sabe, até de uma espécie de loucura ou histeria coletiva.

Achei o tema ainda mais interessante quando encontrei uma outra obra com um pano de fundo muito parecido, certamente mais atual e com um ponto de vista completamente diferente, ainda que igualmente trágico. Talvez você tenha ouvido falar de O Ceifador, de Neal Shusterman, essa obra com capa (e cara) de literatura fantástica, mas que tem um pé em distopia e outro em uma ficção científica água com açúcar.

E pensei, bem, por que não comparar essas duas obras sensacionais em um artigo? Já estava na hora de dar as caras por aqui, e encontrei nesse tema uma boa oportunidade.

Se você gosta de sci-fi e também tem suas teorias sobre o funcionamento de uma sociedade imortal, me acompanha neste artigo e dê sua opinião!

O papel dos livros de ficção científica: olhar para o futuro para entender o presente

Pode soar engraçado, mas a verdade é que apenas olhando tão fundo para o futuro conseguimos entender o que somos agora enquanto humanidade. Ao contrário do que se imagina, ficção científica, ou sci-fi, está muito mais próximo de uma análise antropológica e psicológica da humanidade — e daquilo que nos torna humanos.

Há uma verdade inerente no ser humano que torna a imortalidade um sonho tão poderoso. Nós temos medo de morrer. Isso fica claro quando pensamos no quanto boa parte de nós se segura com afinco em religiões e crenças invisíveis.

O que seria o paraíso senão uma promessa de não-morte? Até mesmo o inferno cristão tem um papel intrínseco de consolar o ser humano, mostrando para ele que, sim, ele vai morrer, mas não vai deixar de existir. Tememos a não-existência como ovelhas temem os lobos.

E essa questão que nos torna tão humanos é a fonte de problemáticas que poderiam surgir caso a ciência descobrisse um jeito de nos deixar vivos para toda a eternidade. A ficção científica trabalha isso com maestria não só em A Cidade e as Estrelas e O Ceifador, mas também em Carbono Alterado e tantos outros livros que se debruçam sobre a imortalidade.

A Cidade e as Estrelas e a imortalidade em um futuro asséptico

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Se teve alguém que se perguntou “o que seria de uma sociedade inteira imortal”, esse alguém foi o Clarke. Em A Cidade e as Estrelas ele parece pegar em nossa mão e nos guiar com paciência, dizendo: tá vendo isso aqui? É o que você vai se tornar quando toda a sociedade for imortal.

Publicado originalmente em 1956, o livro trata de uma cidade isolada que conseguiu os segredos não só da vida eterna, mas também da igualdade social, exterminando completamente a incidência de crimes e da violência. Para todos os efeitos, olhando de longe, essa parece uma sociedade perfeita.

Nela, ninguém precisa trabalhar para sobreviver, porque tudo o que o homem precisa é suprido pelo grande sistema que gerência a cidade. De forma impressionante, o autor trouxe um conceito de uma inteligência artificial onisciente, tão poderosa e minuciosamente controladora que é quase tratada como um deus pelos personagens.

A claustrofobia de uma cidade “perfeita”

Os resultados disso é uma sociedade asséptica, como se nada de errado jamais pudesse acontecer dentro daquela redoma protegida pela inteligência artificial. Imagine uma cidade em que praticamente não há desentendimento, não há fome, doença, e nem preocupações reais…

É essa a Cidade que Clarke apresenta. E, sinceramente, ela me pareceu claustrofóbica. Com o passar das páginas, percebemos o quanto todos os moradores daquela cidade são conformistas e passivos, aceitando que o ser onisciente que governa a cidade é que deve tomar toda e qualquer decisão.

Esse, aliás, parece ser um futuro muito plausível, se formos levar em consideração o quanto muitas de nossas decisões HOJE já são tomadas por sistemas ou inteligências artificiais.

Uma vida sem liberdade ainda é viver?

O livro deixa claro que a única maneira de manter uma sociedade imortal estável é a partir do controle minucioso de um ser muito mais inteligente que o ser humano. Na prática, a troca é o seguinte: você aceita viver para sempre, desde que todas as suas decisões estejam nas mãos de um sistema?

Nessa cidade, até as poucas brigas que rolam entre os moradores são uma coisa matematicamente planejada. Não quero dar muitos spoilers, porque esse é o ponto alto do livro, mas é verdade que a história gira em torno do fato de que qualquer coisa que acontece naquela cidade foi planejado pela inteligência onisciente do sistema. Qualquer coisa.

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A distopia de O Ceifador e a imortalidade não tão imortal assim

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Existe um ponto em comum entre A Cidade e as Estrelas e O Ceifador que parece ser um ponto essencial em uma sociedade imortal: o controle. Mais: o controle extremamente eficiente, realizado por meio de dados. É quase como se a subjetividade humana fosse um veneno para uma sociedade imortal.

E é isso que vemos em O Ceifador. Escrito para um público mais jovem, e com um background mais contemporâneo do que o de Clarke, O Ceifador nos mostra o que seria uma vida em uma cidade normal, como a nossa, com habitantes imortais.

Todos trabalham, estudam e vivem uma vida muito parecida com a nossa. A única diferença é que não importa quantas vezes você adoeça, quantas vezes você sofra acidentes mortais, e nem mesmo quantas vezes você se jogue de um prédio com o objetivo de morte: você não vai morrer. A essência dessa sociedade é composta por uma ciência tão avançada, que qualquer coisa pode ser sanada ou curada.

Mas, a diferença entre os ricos e pobres continuam existindo… E você pode morrer, se o sistema decidir que esse é o momento.

A loucura de uma sociedade gerenciada por dados

No livro, existe uma série de pessoas que possuem uma missão peculiar: a de matar. Essas pessoas usam porcentagens minuciosas para decidir quem vai morrer e quem vai ter acesso à cura milagrosa da ciência da época.

Por exemplo, existe uma chance em 740 mil de você morrer em um acidente de avião. Os ceifadores usam esses dados para provocar mortes controladas aqui e ali. Em resumo, a medicina e a tecnologia são avançadas o suficiente para que nada aconteça com você… Mas em prol de manter um controle sobre essa sociedade imortal, você pode morrer.

Você conseguiria lidar com isso?

A sua morte poderia demorar 100 anos, da mesma forma que poderia levar 10 — tudo depende do seu azar de ser um dos escolhidos “aleatoriamente” com base nesses dados improváveis de morte. A ansiedade que isso provoca é real.

Por outro lado, o livro também mostra como a combinação de imortalidade com o cenário social que temos hoje, com doenças mentais como a depressão e ansiedade, são uma péssima ideia. O resultado disso é tanto uma banalização do ato de morrer (já que qualquer um poderia se jogar de um prédio e ainda assim sobreviver), como também uma banalização da relação com o outro.

Se esse outro estará sempre comigo, por quê vou temer perdê-lo? “, os personagens parecem questionar.

A subjetividade humana é mesmo um veneno

Mesmo com uma tentativa de tornar o controle da morte o mais matematicamente preciso, a verdade é que a sociedade de O Ceifador não consegue se livrar da subjetividade. E essa subjetividade dos ceifadores na hora de matar ou não alguém traz problemas sociais graves, incluindo grupos inteiros de profissionais que matam por prazer.

Olhando para A Cidade e as Estrelas e O Ceifador, eu me pergunto: haveria um limite saudável entre a subjetividade e o controle matematicamente preciso de uma máquina? Será que só podemos encontrar o equilíbrio social, junto com a vida eterna, se formos totalmente controlados por uma máquina?

Esses questionamentos foram o que me moveram para escrever esse artigo. Ambos os livros transformaram muito da minha maneira de ver a vida — e a morte — e, sinceramente, recomendo os dois de olhos fechados para qualquer um que goste de uma boa ficção científica.

Leia O Ceifador agora

E você, conhece outro livro que trate sobre a imortalidade? Deixa aí nos comentários que vou amar conhecer! 💙

Crédito da imagem do topo: Photo by Mateusz Dach from StockSnap