Se você ouvir alguém chamar o Philip K. Dick de louco, não duvide muito. É verdade que o limiar entre a genialidade e a loucura é tão tênue, que é quase impossível discernir, certo? No caso do PKD, isso bem que soa uma verdade mesmo.

O autor não escondia a sua confusão quanto ao mundo, e isso fica claro em seus livros. A verdade é que ele colocava em suas obras muitas de suas próprias crenças e confusões existenciais, e é possivelmente por isso que elas soam tão geniais. Ao menos, quando estamos nos referindo a Blade Runner: Andróides sonham com ovelhas elétricas?.

Você sente isso na pele quando chega no final da edição brasileira de Blade Runner, lançada pela Aleph.

A excentricidade e loucura do gênio

Logo nas últimas páginas do livro, nos deparamos com algumas entrevistas feitas com o Philip K. Dick quando ele ainda era vivo, meses antes de morrer abruptamente.

As respostas dele tinham aquele quê de egocentrismo e excentricidade que só encontramos naqueles que estão no limiar da genialidade e loucura. Sério, ler as entrevistas com o autor logo após ler Blade Runner vai fazer você ter uma visão muito mais ampla de tudo que leu nas obras dele, e isso é fantástico!

Não estou aqui para fazer um resumo completo e biográfico do autor, mas alguns pontos se conectam tanto com a leitura, que não pude deixar de vir aqui falar sobre isso.

Desde jovem, Dick passou por diversos psicólogos e chegou a ser diagnósticado com transtornos, como o medo de multidões e agorafobia.

Ele mesmo contava durante as entrevistas sobre as “visões divinas” que possuía, que provavelmente estavam muito mais próximas de alucinações do que, realmente, experiências divinas.

Mas é possível que estas experiências que o autor sentia como divinas fosse um dos combustíveis de obras que retratam tanto a religião. Em Blade Runner, temos o vislumbre de uma sociedade altamente religiosa, e outras obras do autor discutem o tema ainda mais a fundo, como Valis.

“Andróides sonham” e o que nos torna humanos

Na resenha que fiz recentemente de Blade Runner: Andróides sonham com ovelhas elétricas? falei um pouco sobre os questionamentos (em muitos sentidos, sinceros) do protagonista sobre o que nos torna humanos. É engraçado que possivelmente essa era uma dúvida real do autor.

Tomado constantemente pela paranóia e descrito por alguns como esquizofrênico, é possível que o autor tenha convivido a vida toda com um problema que os andróides, em Blade Runner, também convivem: o embotamento afetivo.

Caso você não tenha muita familiaridade com o tema, pense o seguinte: alguns indivíduos, inclusive as pessoas que sofrem com a esquizofrenia, podem sentir dificuldades em expressar sentimentos. Entre eles, a empatia.

No livro Blade Runner: Andróides sonham com ovelhas elétricas?, o autor nos apresenta um mundo em que o teste supremo que determina se você é humano ou andróide é um teste de empatia.

E muitos dos andróides do livro tentam burlar esse teste, buscando mecanismos de anular a resposta verdadeira.

O engraçado é que biografias do autor mostram que ele tentava fazer o mesmo durante a sua vida. Philip K. Dick teria frequentado diversos psicólogos e psiquiatras buscando “enganá-los”, falseando testes psicológicos.

Inclusive, no livro Blade Runner uma das andróides chega a tentar ludibriar a polícia, falando que na verdade é uma humana esquizofrênica, e não uma máquina.

Quando descobri isso, comecei a ver muito sentido (e muito do autor) em sua obra. E mais, esta pode ter sido uma maneira do autor lançar a grande pergunta: o que nos torna humanos? Pessoas esquizofrênicas são menos humanas porque não são iguais a todos os outros?

Morte precoce e um mar de perguntas sem respostas

Não importa se você leu alguma das obras do PKD ou apenas procurou um pouco sobre o autor… Uma coisa é fato. Em ambos os casos, você provavelmente ficou como eu, com um mar de perguntas – muitas delas sem respostas.

O Philip K. Dick era uma figura controversa e confusa; genial por um lado, complicado por outro. Teve uma vida atribulada, tomada por casamentos fracassados e amizades destruídas por causa de suas constantes paranóias e uso de narcóticos pesados.

Como eu tive contato direto com uma pessoa com esquizofrênia durante boa parte de minha vida, entendo bem o quanto a vida do PKD pode ter sido MESMO uma loucura. A esquizofrenia gera um ciclo de inconstâncias, imagine, então, ela associada ao uso de drogas como a metanfetamina.

É uma pena. O autor faleceu antes de ver o verdadeiro sucesso da adaptação cinematográfica de um de seus livros mais emblemáticos para o cinema. Para nós, leitores, o único alento é a vasta produção literária que o autor deixou.

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